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O Potencial da Engenharia na implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

13 Apr 2018 12:40 | José Cascão (Administrator)

O Potencial da Engenharia na implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS);

Autor: Pedro Neves 

Pedro Neves, licenciado em Engenharia de Minas (pré Bolonha) pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), tem pós-graduações em gestão de projetos, gestão de empresas, gestão de ativos, private equity e venture capital, pela PMP, Católica Lisbon School of Business and Economy, TCN Academy de Utrecht e Harvard Business School respetivamente. É professor convidado da ESAI onde leciona Cidades do Futuro, e coordena o MBA em Requalificação Urbana. É sócio fundador da Global Solutions, membro do Business Advisory Board da United Nations Economic Commisions for Europe (UNECE) onde é o Task Force Leader para a implementação das ODSs. É investigador do centro de investigação da Católica Lisbon Business School and Economics, membro do Business Advisory Board da IESE Business School em Barcelona, e colaborador do centro de investigação da Tsinghua University em Pequim.

As Nações Unidas reconhecem que para atingir os ODS há hoje um “financial gap” anual de $2.5trilioes. Isto é para a “engenharia” no seculo XXI um desafio para promover soluções integradas, que utilizando o desenho, construção e exploração de infraestruturas no sentido lato, implicam incluir na equação para alem da engenharia tradicional, a engenharia ambiental, social e financeira.


Resumo

Para compreendermos o que se espera dos engenheiros no seculo XXI, e da sua intima relação com a implementação das ODS, são apresentados três blocos. No primeiro bloco analisamos a evolução histórica do Desenvolvimento Sustentável até à Agenda 2030 das Nações Unidas que dá origem aos ODS. No segundo bloco observamos os desafios e a complexidade da sua implementação, o papel de relevo das cidades, das soluções integradas, a visão e a gestão do ciclo de vida dos ativos que são criados, a promoção da coesão social, a defesa do planeta, a sua relação com a viabilidade económica e financeira, e a gestão dos investimentos necessários que tem um “financial gap” de $2.5 triliões anuais, exigindo saber promover e trabalhar em parcerias. No terceiro bloco e com base nos objetivos e nos desafios atuais é aprofundado o papel do engenheiro do seculo XXI e na implementação dos ODS ao nível dos projetos, dos programas de investimento e das politicas de desenvolvimento.

  • 1.      Desenvolvimento Sustentável, Agenda 2030 das Nações Unidas e ODS

Podemos considerar que o Desenvolvimento Sustentável (DS) tem várias origens, e resulta da convergência da analise e da necessidade de gerir em paralelo três vetores: social(pessoas), ambiental(planeta) e económico(prosperidade). DS começa a ser discutido formalmente no encontro das Nações Unidas em Estocolmo em 1972, donde lemos: “a conferencia pede aos Governos e aos seus povos que exerçam esforços para preservar e melhorar as condições do ambiente, para o beneficio de todos os povos e para a sua prosperidade.”(United Nations Conference on the Human Environment, 1972). Uma data ainda mais determinante acontece em 1987 na reunião das Nações Unidas em Oslo, onde é apresentado o Relatório Brundtland (nome da ex-primeira ministra Norueguesa), em que obtemos a definição mais frequente de Desenvolvimento Sustentável: “um modelo de desenvolvimento que responda às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras darem resposta às suas próprias necessidades"(UN Commission on Environment, 1987). 

Há vários encontros das Nações Unidas posteriores, no Rio em 1992, Joanesburgo 2002, Rio 2012, havendo sempre uma convergência no tratamento paralelo das questões ambientais, sociais e económicas. O ano de 2015 é, no entanto, o ano em que o Desenvolvimento Sustentável ganha um relevo ímpar, quando passa a ser a base da Agenda das Nações Unidas para 2030. A 25 de setembro de 2015, os 193 estados membros da UN adotam os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) a atingir no ano de 2030, e que passam a guiar as estratégias de desenvolvimento de todos os estados membros. Transformar o nosso mundo: a Agenda para 2030 Agenda do Desenvolvimento Sustentável. Esta agenda é um plano de ação para pessoas, planeta e prosperidade.(United Nations, 2015)

Os ODS, também conhecidos pelas suas siglas em inglês SDGs (Sustainable Development Goals) têm 17 objetivos e 169 metas.  Poderão parecer muitos objetivos e muitas metas, no entanto é fácil reconhecer os 3 pilares de base Pessoas, Planeta e Prosperidade, associados aos vetores de desenvolvimento Social, Ambiental e Económico, nos primeiros 15 objetivos. Os objetivos 16 e 17 trazem os pilares Paz e Parcerias. Os ODS visão em primeiro lugar combater a pobreza, proteger o ambiente não deixando ninguém para trás. Para que isto seja possível é necessário estabelecer ao nível das politicas de desenvolvimento, modelos de crescimento económico que tenham simultaneamente uma agenda social e ambiental.

  • 2.      Os desafios da implementação dos ODS.

Para atingir os 17 objetivos, promover a qualidade de vida para a humanidade e proteger o planeta, significa desenvolver e prestar serviços públicos que implicam realizar investimentos que irão criar ativos, assegurar o seu bom estado de funcionamento, e assim permitir prover os serviços desejados. Na sua maioria estes ativos são infraestrutura no sentido lato, que incluem a mobilidade, as utilidades, todos os edifícios e equipamentos necessários à prestação de serviços públicos nas atividades dos setores primário, secundário e terciário. É de salientar que apesar de haver um objetivo (nº9) especifico para infraestruturas, estes investimentos estão associados a muitos outros objetivos. Por exemplo quando se fala de saúde-vida saudável no objetivo 3 estamos a falar do serviço de saúde, mas também de equipamentos hospitalares e quando se fala de educação no objetivo 4 estamos a falar igualmente de equipamentos escolares. Da mesma forma quando se fala do objetivo 6 (agua), 7 (energia), estamos igualmente a falar de serviços e de ativos de infraestrutura de agua e saneamento, de produção e distribuição de energia, que devem ser desenvolvidos para que os respetivos serviços públicos sejam prestados. De salientar que quando estamos a falar de cidades estamos a falar de conjugar os ativos antes referidos de forma integrada. Neste caso a questão da habitação tem um papel preponderante. Para além de ser necessário desenhar e contruir é necessário assegurar a operação e a manutenção destes ativos de forma a assegurar os serviços públicos respetivos.

O volume investimento considerado necessário para implementar os ODS considera um valor de 2.5 a 4 triliões de USD. Este valor não é hoje compatível com o investimento publico, considerando todas as administrações centrais de todos os países. Para ultrapassar este desafio as Nações Unidas incluíram nos ODS o objetivo 17 que pode ser considerado um convite formal a participação do setor privado na implementação dos ODS. Por detrás destes 17 objetivos, existem 169 metas que definem qualitativamente ou quantitativamente os objetivos.

Os objetivos e as respetivas metas são ambiciosos do ponto de vista técnico, ambiental e social, obrigando a definir estratégias associadas a uma visão a 15 anos, a criar equipas multidisciplinares, e que funcionam em multinível, de projeto, de gestão de investimento e de politicas de desenvolvimento. Associado ao desafio de gestão existe outro de carater técnico-económico-financeiro, relacionado com o facto de que os recursos financeiros sendo escassos, exigem soluções inovadoras ao nível da gestão, da tecnologia e da finança. 

 

  • 3.      Os engenheiros no seculo XXI e a implementação dos ODSs

Identificar patologias no território que requerem o desenho e a construção de ativos de infraestruturas sempre foi o trabalho da engenharia e só por isto se compreende que o desafio atual solicita aos engenheiros à escala global uma presença forte. No entanto para os engenheiros do seculo XXI o verdadeiro desafio está mais além.

Engenharia significa equacionar e implementar soluções. Os engenheiros foram treinados durante a sua fase de formação a equacionar e a resolver problemas. Esta capacidade de analisar e solucionar problemas é provavelmente a mais importante característica dos engenheiros. No entanto no mundo atual onde equações financeiras ganham preponderância é fundamental que ás variáveis físicas com que trabalhamos diariamente como pressão, temperatura, ph, peso, distancia… sejam adicionadas as variáveis monetárias e deste modo apresentar soluções integradas que respondem aos desafios globais atuais. A transformação e a relação de unidades físicas em unidades monetárias estão ao alcance e deve ser praticada pelos engenheiros. Devemos também praticar a utilização das variáveis ambientais devendo estando alerta para a gestão do impacte ambiental. Da mesma forma devemos estar familiarizados com as variáveis sociais sobretudo aquelas relacionadas com a criação de emprego e da coesão social.

Isto tem particular importância no contexto das ODS uma vez que quando pensamos na formação de equipas para desenvolver projetos ou para gerir ativos, estamos efetivamente a falar de criação de emprego. Ou seja, quando fazemos as analises dos projetos e associamos a estes uma variável social, não apenas o emprego durante a fase de projeto, mas também o emprego durante a fase da prestação de serviço estamos a falar de trabalho digno e crescimento económico (objetivo 8). Da mesma forma quando nos projetos estudamos o impacte ambiental tanto no meio terrestre como nos oceanos estamos a falar dos objetivos 13, 14 e 15.

O objetivo 17 Parcerias para o Desenvolvimento, exige uma nova atitude. Para aqueles que consideram que transformar o mundo é trabalho de engenheiro, este é provavelmente o mais importante de todos os objetivos. O seu próprio nome significa que depois de se pensar em tudo que deve ser feito, se deve agora encontrar forma de implementar, através de soluções integradas com equipas de parceiros multidisciplinares, de forma interativa e iterativa. Soluções integradas, significa combinar a engenharia tradicional, com a engenharia ambiental, a engenharia social e a engenharia financeira. Esta é provavelmente o maior desafio para os engenheiros do seculo XXI, ser capaz não só de identificar os desafios, de os transcrever numa equação, mas também, de encontrar os parceiros públicos privados necessário para os implementar e encontrar o capital necessário para investir e financiar o desenvolvimento. Considerando que o capital exigirá um retorno, significa que na verdade o desafio não é apenas produzir ativos, mas antes investir em ativos que produzam um retorno para aqueles que investiram e um retorno com uma taxa de juro para aqueles que os financiaram.

Os engenheiros que hoje compreenderem os desafios que estão por detrás dos ODS, devem por isso ser multidisciplinares, ter capacidade de projetar, contruir, explorar e manter, e, de saber financiar de forma sustentável. Precisarão igualmente de saber relacionar o interesse publico com a dinâmica e o capital privado, compreender e respeitar o planeta assegurando que deixarão uma pegada ambiental positiva, mas sobretudo compreender e criar uma agenda social assegurando que não fica ninguém para trás.

Este é o desafio dos engenheiros de hoje, na verdade o nome desta agenda “transformar o nosso mundo” é um convite formal aos engenheiros para que encontremos soluções. Hoje os problemas são mais complexos e por isso a nossa vida muito mais interessante. Bem-vindos colegas aos ODS, temos muitos desafios pela frente, mas sem duvida estamos preparados par lhes fazer face.    

        

Referências:

Commission on Environment, W. (1987). Our Common Future: Report of the World Commission on Environment and Development. Retrieved from http://www.un-documents.net/our-common-future.pdf

Nations Conference on the Human Environment, U. (1972). Report of the United Nations Conference on the Human Environment - A/CONF.48/14/Rev.1. Retrieved from http://www.un-documents.net/aconf48-14r1.pdf

United Nations. (2015). Transforming our world: the 2030 Agenda for Sustainable Development. General Assembley 70 Session, 16301(October), 1–35. https://doi.org/10.1007/s13398-014-0173-7.2

Pedro Neves, licenciado em Engenharia de Minas (pré Bolonha) pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), tem pós-graduações em gestão de projetos, gestão de empresas, gestão de ativos, private equity e venture capital, pela PMP, Católica Lisbon School of Business and Economy, TCN Academy de Utrecht e Harvard Business School respetivamente. É professor convidado da ESAI onde leciona Cidades do Futuro, e coordena o MBA em Requalificação Urbana. É sócio fundador da Global Solutions, membro do Business Advisory Board da United Nations Economic Commisions for Europe (UNECE) onde é o Task Force Leader para a implementação das ODSs. É investigador do centro de investigação da Católica Lisbon Business School and Economics, membro do Business Advisory Board da IESE Business School em Barcelona, e colaborador do centro de investigação da Tsinghua University em Pequim.

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